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A importância da Autoestima para a Saúde Mental

A importância da Autoestima para a Saúde Mental

            A autoestima é a percepção que o indivíduo tem a respeito de si mesmo e envolve valores, sentimentos e pensamentos. Mais do que gostar de si mesmo, a autoestima inclui conceitos como autoconfiança, autoconceito e autovalorização.

A autoconfiança indica o quanto o indivíduo conhece sobre si mesmo, sua capacidade em lidar com as diversas situações, o quanto se sente seguro e se valoriza. O conceito que a pessoa vai construindo sobre si mesma ao longo da vida é influenciado pelas experiências que vivencia, sejam elas traumáticas ou não, bem como as mensagens que vai recebendo do ambiente externo, como “você é um desleixado, não faz nada direito”, “deixa que eu faço, senão vai sair tudo errado, você é desastrado”, entre outros.

O autoconceito envolve a opinião que a pessoa tem sobre si mesma. Muitas vezes essa opinião pode estar distorcida pela interferência da opinião de outras pessoas, ou mesmo frente a presença de alguns problemas de saúde mental, como a depressão, problemas alimentares ou sexuais. Quando as pessoas estão deprimidas, há uma tendência a apresentar pensamentos negativistas e pessimistas a respeito de si mesmo e das pessoas e situações em geral. Se a pessoa possui problemas alimentares, em alguns casos pode ter uma visão distorcida sobre a sua autoimagem, vendo-se mais gorda ou mais magra do que realmente é, o que pode afetar o conceito que tem sobre si. As experiências anteriores também interferem, como “você é um desorganizado, não faz nada direito”, “levanta daí, você é um preguiçoso, não serve pra nada”.

A autovalorização é o sentimento que a pessoa nutre por si mesma, é o quanto ela se gosta, o valor que dá a si mesma, acompanhado por comportamentos e pensamentos. Deste modo, a autoestima não é apenas o modo como o indivíduo se sente em relação a si, mas também o que pensa sobre si e como se comporta.

E quando as pessoas não possuem uma boa autoestima? E quando há a presença de algum Transtorno Mental que influencia a percepção que o indivíduo tem de si de forma negativa?

O acompanhamento psicológico pode se tornar uma excelente oportunidade para que o indivíduo possa se conhecer mais, aprenda a se gostar e desenvolva uma melhor qualidade de vida. A Terapia Cognitivo Comportamental (TCC), mais especificamente, é uma forma de psicoterapia, que na sua abordagem teórica preconiza que o modo como as pessoas veem e interpretam as situações, determinará o modo como sentem e reagem a elas. Nessa modalidade de psicoterapia trabalha-se com os pensamentos e crenças irracionais e/ou distorcidas que podem estar interferindo na percepção e causando sofrimento significativo para as pessoas.

As crenças irracionais seriam pensamentos rígidos, inflexíveis, que distanciam as pessoas de atingirem os seus objetivos, as paralisam. Assim, uma pessoa que mantém uma necessidade de aprovação das outras pessoas, pode sofrer muito quando recebe uma crítica de alguém, ou mesmo quando há uma recusa de um convite. Estas podem ser situações corriqueiras na vida das pessoas em geral, mas para alguém que tem a necessidade de aprovação, o impacto destes eventos pode ser muito maior.

Para o ser humano, torna-se natural querer ser aceito e valorizado por outras pessoas, no entanto, não é factível que isso ocorra com todas as pessoas ao seu redor. Nem todas as pessoas gostam da mesma cor ou da mesma fruta, então nem todas as pessoas talvez gostem de nós.

Na TCC, busca-se intervir nessas percepções distorcidas e nesse padrão de pensamento que leva o indivíduo ao sofrimento. Isso pode ocorrer de diversas formas, por meio de algumas técnicas cognitivas, em que o profissional levará o cliente a perceber a irracionalidade do seu pensamento, buscar evidências, refletir sobre a funcionalidade e utilidade do seu pensamento, entre outros. Pode também usar técnicas emotivas, ao acessar as emoções e trabalhar com as emoções negativas não saudáveis, ou seja, aquelas que levam ao sofrimento. Outro conjunto de técnicas são as comportamentais, onde o profissional poderá propor alguns experimentos comportamentais para testas seus pensamentos.

Exemplo: Considerando uma pessoa que se sente muito triste após o término de um relacionamento, fruto de traição por parte do companheiro. Essa é uma situação que naturalmente deixaria as pessoas tristes, algumas mais, outras menos. No entanto, terão pessoas que poderão passar a acreditar que isso ocorreu porque ela não foi uma boa namorada, porque ela não foi “capaz de segurar o namorado”. Pode ser que por trás dessa visão, observe-se que essa pessoa está com problemas em sua autoestima, vendo-se como uma pessoa incapaz de manter um relacionamento (autoconfiança), uma pessoa desinteressante, na qual ninguém será capaz de gostar (autovalorização) e uma mulher atrapalhada e estressada (autoconceito). Essa visão de si mesma, suas crenças relacionadas a necessidade de aprovação e de desqualificação global, podem interferir no modo como essa pessoa enfrentará esse evento de vida. Na TCC o profissional auxiliará o cliente a identificar esses pensamentos e trabalhar no sentido de flexibilizá-los, para que este possa desenvolver melhores estratégias de enfrentamento perante situações de crise.

Alguns aspectos que podem auxiliar para melhorar a autoestima são:

– Faça uma lista de qualidades, duas por dia, por pelo menos uma semana. Isso o levará a olhar para habilidades, talentos e qualidades que muitas vezes não são observadas. Contribuirá também para melhorar a sua autoconfiança, autoconceito e autovalorização;

– Invista mais tempo em atividades que sejam prazerosas e agradáveis, para gerar mais emoções positivas e de bem-estar, isso o fará se sentir melhor;

– Busque se conhecer melhor, identificar quem você é, o que gosta de fazer, com quem gosta de estar, assim como, qual é a direção valorizada que você quer dar para a sua vida, para qual direção a bússola da sua vida irá se direcionar, baseado em quais valores que são fundamentais para você, entre outras palavras, qual é a vida que vale a pena ser vivida;

– Aceite-se incondicionalmente. Aceite a si mesmo com suas qualidades e com suas dificuldades, mesmo que não goste delas. O primeiro passo para o processo de mudança é aceitar a situação atual, para em seguida se comprometer com a mudança. Aceite quem você é e se comprometa com o que se quer ser;

– Desenvolva a autocompaixão. Seja carinhoso, generoso, receptivo às suas dificuldades e angústias. Somos pessoas humanas e, como humanos, somos seres falíveis. Não acertamos sempre, não estamos bem todos os dias. O meu melhor hoje, diante do término de um relacionamento, é o melhor que eu posso dar nesse momento. Pode não ser o meu melhor como pessoa, mas tenha autocompaixão e respeite seu momento de dificuldade e sofrimento, seja carinhoso consigo mesmo;

– Construa uma vida que lhe direcione a sua felicidade pessoal. Coloque-se em primeiro lugar na sua vida, respeitando o espaço e o direito das outras pessoas. Isso implica que você passe a assumir a direção do barco da sua vida;

– Busque ajuda psicológica ou psiquiátrica, se necessário. Não espere que as coisas estejam fora de controle, seja o primeiro a assumir o controle da sua própria vida.

Referências Bibliográficas

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Beck, A.T.; Rush, A.J.; Shaw, B.F. & Emery, G. (1997). Terapia Cognitiva da Depressão. Porto Alegre: Artmed.

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Oliveira, R. L., & Justo, R. L. (2019). Terapia Racional-Emotiva Comportamental com idosos. (pp. 98-136). In M. E. N. Lipp,  T. M. Lopes, & G. F. Spadari (Eds.). Terapia Racional-Emotiva Comportamental na teoria e na prática clínica. Novo Hamburgo, RS: Sinopsys Editora. 

Wright, J. H., Brown, G. K., Thase, M. E., & Basco, M. R. (2018). Aprendendo a Terapia Cognitivo-Comportamental-: Um Guia Ilustrado. Artmed Editora.

* Este artigo foi produzido por: Roseli Lage de Oliveira, Psicóloga Clínica, Terapeuta Cognitiva Certificada pela FBTC, Coordenadora do Conscientia – Núcleo de Estudos de Comportamento e Saúde Mental, Doutora em Ciências pelo Núcleo de Neurociências e Comportamento do IP-USP, Membro da Diretoria da Associação de Terapias Cognitivas do Estado de São Paulo (ATC-Paulista) e da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas. Coordenadora Pedagógica do Curso de Especialização em Terapia Cognitivo-Comportamental com ênfase na Saúde e na Saúde Mental da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.

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