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A Fisioterapia na Saúde Mental

São diversos os profissionais da saúde que podem contribuir na assistência à pessoa que apresenta transtornos mentais. 

A assistência é feita através da reabilitação psicossocial, que é compreendida como um conjunto de ações que buscam o fortalecimento, a inclusão e o exercício de direitos de cidadania dos indivíduos e seus familiares, mediante a criação e o desenvolvimento de iniciativas articuladas como os recursos do território, visando a inserção/reinserção desse indivíduo no campo do trabalho, habitação, educação, cultura, segurança e direitos humanos. 

Um destes profissionais é o Fisioterapeuta e, neste artigo, convidamos um profissional da área para nos ajudar a entender o papel da Fisioterapia na Saúde Mental.

A abordagem do Fisioterapia na Saúde Mental

O ritmo de vida atual possui uma grande carga de estresse, ainda mais em uma cidade como São Paulo, onde somos submetidos a fatores extenuantes diariamente como trânsito, cobranças, frustrações, imediatismo, sedentarismo e sono de baixa qualidade.

Esses fatos possuem uma forte conexão com a ansiedade e depressão que, por sua vez, tem uma grande ligação com dores crônicas.

Transtornos como ansiedade e depressão geram de forma negativa uma influência na capacidade em lidar com sua experiência dolorosa. Irritabilidade, alterações de sono, pensamentos negativos e alterações de humor são muito comuns dentro destes diagnósticos.

O medo e a insegurança alimentam a cronicidade somadas às evitações, gerando o que chamamos de cinesiofobia – que é o medo do movimento. Isso leva a um um ciclo vicioso e gradativo, promovendo incapacidades cada vez maiores e assim dando base a uma piora na qualidade de vida onde o paciente se vê com sua percepção de dor totalmente alterada, visto que seu limiar de dor se encontra cada vez mais baixo.

Essa problemática do mundo atual nos faz crer que algo está errado ou simplesmente nossa prática clínica precisa aumentar o número de ferramentas buscando uma nova abordagem para dores crônicas.

É de extrema importância que se faça uma avaliação de qualidade para início do tratamento. O primeiro passo sempre é entender se aquela dor é denominada como bandeira vermelha, que são casos com maior gravidade como:

  • fratura
  • perda de força e sensibilidade,
  • histórico de câncer,
  • perda de peso sem explicação.

Esse são fatores que nos levam a um cenário totalmente diferente, sendo necessário o encaminhamento direto ao médico especialista para uma exploração mais minuciosas. Excluindo as bandeiras vermelhas, podemos trabalhar com tranquilidade dando segurança ao paciente.

Para explorar essa nova abordagem é necessário começar pelo modelo antigo que é denominado modelo Biomédico – um modelo patoanatômico, linear baseado na investigação na cura permanente, buscando uma alteração anatômica estrutural e/ou uma lesão tecidual.

Depois, com uma nova abordagem, é denominada Biopsicossocial e é composta por fatores biológicos (anatomia, exames de imagem, abordagem mecânica), psicológicos (experiências, pensamentos, emoções e comportamentos) e também sociais (trabalho, cultura, religião entre outros) onde, de uma forma mais global, a dor é avaliada e somada a todo um contexto do momento que o paciente vive.

Atualmente, visa-se buscar um equilíbrio entre os dois modelos, não negligenciando a parte anatômica, visto que a base da formação de um Fisioterapeuta é anatômica, mas sim ampliar nossas ferramentas. No cenário atual encontramos pacientes com anos de dor, muitas perguntas não respondidas, muitos diagnósticos e falta de sucesso em seus tratamentos prévios, isso nos traz a implementação de um novo modelo de abordagem.

A abordagem Biopsicosocial nos mostra que a dor não é somente uma pancada ou um tecido danificado, a dor é “Uma experiência sensorial e emocional aversiva tipicamente causada por, ou semelhante à causada por, lesão tecidual real ou potencial.”, com base nisso a educação em dor foi fundada, uma terapêutica que visa trazer de volta a confiança e qualidade de vida ao paciente, usando o enfrentamento para se livrar das modulações negativas fundadas no medo da não cicatrização, da evitação do movimento, catastrofização  e cinesiofobia sintetizadas por um sentimento de uma vulnerabilidade a dor e medo de reincidência da lesão. Muitas vezes nosso corpo entende algo como uma ameaça e pode interpretar isso como dor, isso justifica a problemática dos pacientes com dores crônicas persistentes que tem tanto medo de dobrar a coluna, correr, pegar um peso mesmo após muito tempo da sua última crise, acreditando que aquilo é danoso para sua saúde ou que aqui pode gerar um dano irreversível para sua coluna.

É sabido hoje que a dor é uma experiência, algo multifatorial que envolve emoções, contextos sociais, experiências prévias, entre muitos outros fatores que, junto das sensações, formam a dor. Por isso, quando um paciente relata que sua hérnia de disco dói, precisamos reestruturar essa problemática, essa alteração/problema sim tem um efeito em sua dor mas não é somente isso.

Com base nisso é crescente a chegada de pacientes que buscam a cura da sua hérnia, e quando explicamos que vamos fazer um tratamento na gestão da dor, dando força, mobilidade funcionalidade e qualidade de vida vem sempre a pergunta: – “Tá, mas e a minha hérnia vai ficar ali?” É importante lembrar que somos profissionais que não atuam com procedimentos invasivos, não temos capacidade de tirar aquela hérnia, porém podemos mostrar um mundo novo, reencontrando a confiança e vontade de viver.

As bases dessa nova visão possibilitam uma boa conexão entre terapeuta e paciente, trazendo confiança, atenção, interesse, aumentando o vínculo terapêutica onde o paciente se sinta acolhido em um ambiente confortável que ele possa ser ouvido, compreendido e não invalidado. O acolhimento é fundamental em qualquer transtorno mental e nossa intervenção busca a mudança de vida visto que grande parte desses pacientes se encontram em sedentarismo, num ciclo de evitações por medo de sentir dor e nessa situação nossa ideia é abrir novos campos trazendo uma vida mais ativa utilizando um manejo baseado em terapia ativa, fugindo cada vez mais de um modelo onde o paciente deita e recebe uma massagem ou um aparelho, utilizando do exercício físico como grande ferramenta numa exposição gradual.

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