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Folclore: conhecimento popular

Dia 22 de agosto é o Dia do Folclore, comemorado no Brasil e em diversos países do mundo.

O termo, que deriva do inglês “folk-lore” (conhecimento popular), foi cunhado pela primeira vez em 1846, em uma carta do arqueólogo William John Thoms, e foi sugerido para definir todo o conjunto de tradições e “antiguidades” populares.

Obviamente, apesar de ter recebido um termo específico para designar esse gênero cultural, as tais tradições datam desde muito antes, aproximadamente na época medieval.

O mais interessante é entender porque em dado momento, o folclore se distanciou da “cultura comum” e foi colocado em uma categoria própria.

Tradições e costumes

Para alguns historiadores, como Eric Hobsbawn, os conceitos de “costumes” e “tradições” divergem entre si, inclusive renovando o debate a respeito das práticas rituais e simbólicas.

No livro “A invenção das tradições”, Hobsbawn introduz o conceito da “tradição inventada”, ou seja, aquela que se caracteriza por estabelecer uma continuidade artificial com o passado e depende da invariabilidade como fio condutor para impor práticas fixas (normalmente formalizadas), tais como a repetição.

Já o costume exerce a “a dupla função de motor e volante. Não impede as inovações e pode mudar até certo ponto, embora evidentemente seja tolhido pela exigência de que deve parecer compatível ou idêntico com o precedente”.

Isso ajuda a entender sob qual ótica a sociedade intelectual enxerga o Folclore, um conjunto de tradições populares e não de costumes.

A Cultura da maioria

Se a diferenciação entre o que configura uma tradição e um costume ainda é tema de debate, a história do Folclore é um pouco mais fácil de ser traçada.

Historiadores do período medievalistas afirmam que, antes mesmo da separação do considerado “popular”, o que prevalecia era a cultura da maioria, transmitida informalmente nos mercados, nas praças, nas feiras e nas igrejas, aberta, portanto, a todos.

Nessa época, a nobreza, o clero, a aristocracia e os “não-nobres” assistiam aos mesmos espetáculos, seja participando do carnaval ou de outras festividades. Sermões, baladas e poesias que frequentavam a corte eram também encontrados em tavernas e nas ruas.

O discernimento entre o erudito e a cultura popular só veio a acontecer após 1800, com a transformação da própria cultura erudita proveniente de movimentos como o Renascimento e o Iluminismo. Pela primeira vez, a “cultura do povo” sofreria o processo de romantização e seria enxergada como “algo exótico e interessante”.

Revitalização das tradições

Com a revolução industrial, o folclore estava fadado a se extinguir, mas o potencial de conservar as tradições, garantiu a essas festas populares um patamar de patrimônio nacional.

Principalmente por se basear na tradição oral, o folclore se tornou o canal para passar os costumes do povo de geração para geração, através de festas, comidas típicas, lendas, contos e cantos populares, sincretismo religioso e religiosidade popular, além das diversas superstições e crendices associadas se tornaram o principal objeto de estudo. Com a dissociação da cultura erudita, essas tradições se tornaram objetos de estudos para associações focadas em preservar os costumes populares e passaram a integrar um caráter de simbolismo. Apesar do estudo do folclore ser reconhecido como integrante das ciências antropológicas, muitas vezes esse conjunto tradições acaba não sendo levado “a sério” como outros gêneros da cultura.

Podemos perceber essa rusga na Carta do Folclore, lida pela primeira vez no I Congresso Brasileiro de Folclore, em 1951. Segundo a carta:

“[O documento]…condena o preconceito de só considerar como folclórico o fato espiritual e aconselha o estudo da vida popular em toda sua plenitude, quer no aspecto material, quer no aspecto espiritual. Constituem o fato folclórico as maneiras de pensar, sentir e agir de um povo, preservadas pela tradição popular e pela imitação e que não sejam diretamente influenciadas pelos círculos eruditos e instituições que se dedicam ou à renovação e conservação do patrimônio científico e artístico humanos ou à fixação de uma orientação religiosa e filosófica.”

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