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Monitoramento eletrônico do humor auto-relatado: o retorno da subjetividade?

A experiência subjetiva do humor é uma das valiosas fontes de informação sobre o estado da função mente / cérebro. Ao construir os alicerces da psiquiatria durante o século XIX, os médicos prestaram considerável atenção aos sentimentos subjetivos dos pacientes.

A psiquiatria e a psicologia do século XX tentaram se afastar da experiência subjetiva, questionando sua validade, especialmente sob a influência do behaviorismo. Pesquisadores tendiam a negligenciar a experiência subjetiva. A introspecção foi considerada pouco confiável e cientificamente insatisfatória. Os psicólogos, em particular, viam os auto-relatos com grande suspeita. Além disso, havia uma tendência a aceitar auto-relatos somente se algumas medidas fisiológicas os autenticassem.

Estabilizadores do humor

Com o surgimento dos estabilizadores do humor, e quando o behaviorismo diminuiu gradualmente como uma força dominante, um novo paradigma começou a ocorrer, no qual o humor – a “cor” da experiência subjetiva – é visto como uma rica fonte de informação com uma regulação bastante complexa.

O interesse da pesquisa em transtornos do humor expandiu-se, reconhecendo a importância da experiência subjetiva e do humor do indivíduo, para enriquecer as informações obtidas a partir de medidas objetivas.

Emoções são geralmente vistas como estados afetivos fundamentais, distintamente subjetivos, de duração mais curta, acompanhados por expressões corporais e mudanças autonômicas. Os humores são geralmente definidos como estados afetivos que podem durar de várias horas a vários dias e são fortemente influenciados por eventos externos por fatores como estresse, atividade social e exercício, bem como de ciclos ou ritmos endógenos.

Auto-monitoramento

Na prática clínica, as tarefas primárias são identificar precocemente a doença e tratá-la efetivamente. Para começar, o auto-monitoramento do humor pode ser útil na prática clínica ao avaliar se um determinado tratamento é útil.

A identificação do tipo de doença e a adaptação de um estabilizador de humor ao perfil clínico individual de um paciente com transtorno bipolar é um exemplo da utilidade das avaliações diárias na prática clínica. Deve-se ressaltar que a informação crítica para a escolha de um estabilizador efetivo vem em primeiro lugar dentre os demais aspectos do perfil clínico, como história familiar, tipo de evolução clínica (episódica ou não episódica) ou comorbidade.

Padrões de variabilidade de humor são diferentes entre os pacientes com diferentes diagnósticos. Vários estudos mostraram que altos níveis de regularidade do humor (baixa variabilidade, em outras palavras) são característicos de estados de doença, particularmente em pacientes com depressão maior, transtorno de estresse pós-traumático ou transtorno do pânico.

No transtorno bipolar, até recentemente, a ênfase foi colocada em episódios agudos de depressão ou mania, subestimando as sutilezas das alterações de humor entre os episódios como uma característica fundamental do transtorno.

Monitoramento eletrônico do humor

Um dos primeiros esforços para incluir um monitoramento mais abrangente e eletrônico do humor, conformidade com medicamentos e sono foi o “Cronorecord”. Usando esta abordagem em grandes estudos internacionais, os autores analisaram produtivamente muitos aspectos do transtorno bipolar, que vão desde a evolução clínica, adesão ao tratamento, sono, entre outros.

Mais recentemente, o grupo Oxford também desenvolveu o sistema “True Colors”, que também monitora o humor remotamente. True Colors fornece uma maneira de visualizar dados de humor ao longo do tempo. Os dados são disponibilizados ao paciente, o que permite que o paciente esteja mais consciente da variabilidade de humor, atividade e sono. Isso lhes permite monitorar o quanto eles são ajudados por um novo medicamento ou por um tratamento psicológico particular. Ao mesmo tempo, a criação de um sistema automático que capta sinais precoces de deterioração dos auto-relatos é bastante vantajosa e permitirá estudar os efeitos específicos de um medicamento.

A tecnologia moderna, com sua capacidade de transferir informações do indivíduo diretamente para o pesquisador por meio de aplicativos eletrônicos (“apps”), levou as investigações mais adiante. Eles tornam relativamente fácil coletar diariamente a avaliação subjetiva dos sintomas e submetê-los diretamente à análise automatizada, para que os sinais de alerta possam ser comunicados diretamente à equipe de tratamento.

Aplicativos de saúde mental

Os aplicativos de saúde mental têm o potencial de serem ferramentas úteis para complementar a prática clínica, mas a maioria daqueles atualmente disponíveis não tem evidências científicas sobre sua eficácia.

Nesse contexto, os aplicativos estão se tornando um avanço tecnológico que nos permite estudar a regulação do humor e tratar melhor e com mais profundidade os transtornos do humor.

Com as vantagens das tecnologias modernas, a adoção de uma abordagem que combina classificações subjetivas de humor e dados objetivos nos permitirá estimar o risco de recorrência e orientar um tratamento efetivo e personalizado para pacientes com transtornos de humor.

Artigo: Electronic monitoring of self-reported mood: the return of the subjective? (Monitoramento eletrônico do humor auto-relatado: o retorno da subjetividade?)

Autor(es)/data: ORTIZ, A. & GROF, P. (2016)

Periódico: International Jornal of Bipolar Disorders

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