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Top 10 de livros sobre psicanálise

O que define os textos clássicos de grandes pensadores é que eles provocam novas ideias em nós a cada vez que os lemos.

Um exemplo disso são os Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, de Sigmund Freud, de 1905. Ajudamos a produzir a nova tradução deste trabalho, o primeiro em inglês, por um autor cujo trabalho transformou a compreensão da psicologia humana. (O livro já estava disponível antes, mas apenas em uma edição de 1924, extensivamente revisada por Freud).  Juntamente com o monumental Interpretação dos Sonhos, os Três Ensaios não são apenas um dos textos fundadores da psicanálise, também afetaram ideias sobre a sexualidade como nenhum outro texto.

Curiosamente, a primeira edição descreve uma teoria da sexualidade que, em muitos aspectos, está em desacordo com as adições mais “heteronormativas” (oedipais). Esta teoria mais liberal – e, em certo sentido, estranha – foi “reprimida” pelas sucessivas edições e interpretações posteriores. Esta tradução nova joga uma nova luz sobre o trabalho de Freud nesse mesmo período. Mais ainda: desfazer esta “repressão” fortalece mais uma vez a importância de Freud para as atuais discussões sobre identidade sexual e gênero.

Esta lista é uma são as nossas leituras favoritas na psicanálise e na ficção associadas às ideias freudianas; ela mostra uma tradição sempre iluminadora do pensamento sobre o tema:

1 – Freud, de Jonathan Lear (sem tradução em português)

Provavelmente a melhor introdução filosófica nas ideias e conceitos centrais das teorias e da prática de Freud, que continuam a ter significado para o pensamento contemporâneo sobre o ser humano em relação a si próprio e ao mundo. Abrange suas teorias do inconsciente, sonhos, transferência, funções mentais, a estrutura da psique e, claro, a nova concepção radical da sexualidade em termos de “impulso” e não mais em termos de “instinto”.

 

2 – Hamlet, de Shakespeare

As dúvidas, ambivalências e hesitações do príncipe dinamarquês intrigaram a muitos, inclusive o próprio Freud. Os desejos e fantasias assassinos que são abertamente exibidos no mito de Édipo são mais reprimidos em Hamlet, cuja consciência o tornou covarde – mas, em última instância, um homem perigoso, não só por causa do seu tio e dos rivais, mas também por sua amada Ofélia. É Hamlet quem nos mostra o que realmente significa o complexo de édipo.

 

3 – O som e a fúria, de William Faulkner

Por causa da narração em fluxo de consciência, este romance está ligado a uma era literária – muito em dívida com Freud – na qual a vida interna dos personagens recebeu grande atenção. Pensamentos conscientes parecem surgir de fantasias, ideias, memórias e percepções. A narrativa brilhante de Faulkner foca na dinâmica entre três irmãos, o mentalmente problemático Benjy, o cínico e deprimido Quentin e o sardônico Jason. Através de suas mentes, testemunhamos a dissolução lenta, mas inevitável – ao longo de cerca de 30 anos – da aristocrática família Compson.

 

4 – História da sexualidade, parte I, de Michel Foucault

Este livro é um dos textos contemporâneos mais influentes sobre a sexualidade. Muitas vezes, é lido como uma crítica violenta da psicanálise. A versão de Foucault da sexualidade não é uma força natural que nos habita, mas mostra nossos desejos sendo constituídos no decorrer de práticas sociais historicamente específicas. A psicanálise é uma prática. No entanto, a referência a um “corpo de prazeres” subjacente a essas estruturas sociais lembra a maneira como Freud tematiza a sexualidade infantil na primeira edição dos Três Ensaios. Lá, esse corpo pode ser identificado com prazeres corporais não funcionais que podem ser descritos em termos fisiológicos.

 

5 – Between Seduction and Inspiration: Man by Jean Laplanche (sem tradução em português)

O encontro da criança com a sexualidade adulta desempenha um papel formativo na construção de sua sexualidade. Na verdade, a sexualidade não acontece apenas “dentro” de mim, ela também vem do exterior como uma mensagem enigmática enviada pelo outro. Se a criança gosta disso ou não, saiba ela ou não, o adulto confronta o filho pequeno com mensagens sexuais enigmáticas – um beijo apaixonado, uma mãe grávida etc. – que a criança só integra parcialmente em sua própria experiência. Essa “situação antropológica fundamental” transforma o corpo sexual (sensual) em um ponto de interrogação que talvez nunca seja completamente superado.

 

6 – Freud: Biólogo da Mente, de Frank Sulloway (sem tradução em português)

Sulloway reconstrói de forma notável os fundamentos biológicos da teoria freudiana, que absorveu muitas lições de Darwin ao lado da influência do enigmático Wilhelm Fliess, que era o companheiro intelectual de Freud até o início do século XX. A psicanálise não emerge tanto quanto a psicologia darwinista, mas uma psicologia para o darwinismo.

 

7 – O complexo de Portnoy, de Philip Roth

O monólogo de um advogado judeu que – em sessões com seu psicanalista Dr. Spielvogel (o que um sobrenome esconde?) – fala sem rodeios e em detalhes sobre seus esforços sexuais, muitas vezes perversos. Em 1969, esse romance causou controvérsias em particular por causa descrições de masturbação e da linguagem franca. Sem “os tempos estão mudando”, como diz a famosa canção de Dylan: Freud encontrou objeções semelhantes sobre os mesmos tópicos quase 70 anos antes.

 

8 – A emergência da sexualidade, de Arnold Davidson

A psicanálise só pode ser entendida corretamente em relação à psiquiatria e sexologia de seu tempo. Inspirado por Foucault, Davidson discute o surgimento da psicossexualidade e de um estilo de raciocínio psiquiátrico que a acompanha e coloca a saúde psíquica acima e contra a psicopatologia. A psicanálise foi, por um lado, instrumental para esse surgimento. Mas prometeu, ao mesmo tempo, uma ruptura radical com esse estilo de raciocínio. A partir de então, os patológicos – em particular as perversões sexuais – são parte e parcela da normalidade. A psicanálise nasce dessa relação ambígua com a psiquiatria.

 

9 – Quando Nietzsche chorou, de Irvin Yalom

É 1882, pouco antes do nascimento da psicanálise. Lou Andreas-Salomé implora a Josef Breuer, companheiro de Freud nos primeiros estudos sobre histeria, para ajudar um filósofo brilhante, mas desesperado e suicida, chamado Friedrich Nietzsche. O enredo do livro, que combina realidade e ficção, desenvolve-se com Breuer descobrindo a “cura falante” psicanalítica e a importância da “varredura da chaminé”, e Nietzsche encontrou a inspiração – a “vontade de poder” – para seu encontro com Zaratustra. É uma história emocionante sobre uma autêntica amizade que, na verdade, nunca aconteceu.

 

10 – Eros e civilização de Herbert Marcuse

Publicado em 1955, o texto de Marcuse é um marco na reflexão filosófica pós-guerra sobre a teoria freudiana. O livro é basicamente uma leitura marxista do conflito entre o impulso sexual e a satisfação do homem (eros) e a sociedade capitalista repressiva que exige desempenho em produtividade útil e “neurótica” (trabalho). Somente em uma futura sociedade socialista, o trabalho será liberado das forças repressivas e liberado para o prazer libidinal. Nessa sociedade por vir, todo trabalho será passatempo e jogo.

 

Texto escrito por Philippe Van Haute e Herman Westerink, responsáveis pela tradução do Three Essays on the Theory of Sexuality.

Texto original disponível em: The Guardian

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